Ex-secretária de Educação do Distrito Federal e ex-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Hélvia Paranaguá compartilha suas perspectivas sobre a transição da gestão pública para a política parlamentar, os avanços e gargalos do ensino na capital federal, a implementação do Novo Ensino Médio e o financiamento da educação básica no Brasil.
Confira a íntegra da conversa no programa Sem Censura:
Sem Censura: A senhora construiu uma trajetória como professora de carreira e secretária de Educação do DF. Na Câmara dos Deputados, a lógica deixa de ser puramente executiva e passa pela negociação política intensa. Como pretende manter o pragmatismo técnico diante das pressões e barganhas partidárias do Congresso Nacional?
Hélvia Paranaguá: Eu não vejo técnica e política como coisas opostas. Uma boa política pública precisa de conhecimento técnico, mas também de diálogo e capacidade de articulação.
Minha trajetória começou na sala de aula e passou por diferentes funções na Secretaria de Educação até chegar à gestão. Foram cinco anos tomando decisões difíceis, sempre com planejamento, responsabilidade e foco em resultados.
Na Câmara, vou dialogar com todos, porque essa é a natureza do Parlamento. Mas diálogo não significa abrir mão de princípios. Educação não pode ser moeda de troca. Quero levar para Brasília essa experiência: dialogar para construir, negociar quando necessário, mas manter firmeza naquilo que considero essencial para a população.
Sem Censura: Durante a sua gestão na Secretaria de Educação, a expansão de creches e salas de aula foi uma das principais vitrines. Contudo, desafios como a infraestrutura de escolas antigas, a valorização dos professores e o combate à evasão no ensino médio continuam na pauta. Quais gargalos da sua própria gestão o DF não conseguiu resolver e de que forma sua atuação como deputada federal ajudará a superá-los?
Hélvia Paranaguá: Toda gestão precisa ter a humildade de reconhecer avanços e também aquilo que ainda precisa ser feito.
O Distrito Federal tem uma particularidade importante: por não termos municípios, somos a única unidade da Federação que atende todas as etapas e modalidades da educação básica, da creche ao ensino médio. Isso torna a rede muito ampla e complexa, porque são etapas distintas, com necessidades específicas e que exigem diferentes formas de atendimento e cuidado.
Avançamos muito na educação infantil, com a expansão de creches e a criação de novas vagas. Iniciamos o ano letivo de 2026 com mais de quatro mil vagas disponíveis nas creches e, ainda hoje, temos unidades com vagas sobrando. Isso mostra que o desafio agora é também territorializar melhor essa oferta.
Por isso, precisamos continuar avançando na construção de novos CEPIs, especialmente nas sub-regiões e nas novas Regiões Administrativas do Distrito Federal, onde o crescimento populacional gera novas demandas. Não basta termos vagas, precisamos que elas estejam onde as famílias precisam.
Na valorização dos profissionais, tivemos avanços concretos: incorporamos a Gratificação de Atividade Pedagógica (GAPED) da carreira Magistério Público e a Gratificação de Atividade de Suporte Educacional (GASE) da carreira PPGE, dobramos o valor da titulação dos professores, concedemos reajuste de 18% para todos os profissionais da educação, incorporamos o auxílio-saúde e pagamos a última parcela do plano de carreira que vinha de governos anteriores.
Também precisamos avançar nas políticas que incentivem a permanência e aprendizagem dos jovens no ensino médio, aproximando a escola da formação profissional, da ciência, da tecnologia e do mundo do trabalho.
Como deputada, quero ampliar recursos para infraestrutura e educação infantil, fortalecer o ensino médio e defender políticas nacionais de valorização dos profissionais e de permanência dos estudantes.
Sem Censura: Sua gestão no DF esteve à frente da implementação do Novo Ensino Médio e de parcerias e modelos de gestão como as escolas cívico-militares. Como a senhora avalia os impactos dessas políticas hoje e qual será sua posição no Congresso em relação às constantes propostas de revisão e revogação desses modelos?
Hélvia Paranaguá: Minha posição é que educação precisa ser avaliada por resultados, e não por disputas ideológicas.
O Ensino Médio passou por três mudanças em cinco anos e temos hoje um novo marco legal. Precisamos implementá-lo, avaliar resultados e corrigir o que for necessário. O estudante não pode ser vítima de mudanças constantes de rumo.
Nas escolas cívico-militares, também defendo uma análise baseada em evidências. No DF, tivemos comunidades que avaliaram positivamente aspectos como disciplina, convivência e segurança.
Não acredito em um modelo único para todo o Brasil. Precisamos respeitar as características de cada comunidade, mantendo compromissos inegociáveis: aprendizagem, inclusão, disciplina, respeito e desenvolvimento integral.
No Congresso, vou defender o que funciona e aperfeiçoar o que precisar ser aperfeiçoado.
Sem Censura: Como presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), a senhora acompanha de perto a disparidade de recursos entre estados e municípios. Quais propostas concretas pretende defender em Brasília para garantir que a complementação da União via Fundeb chegue de forma justa sem sobrecarregar orçamentos locais?
Hélvia Paranaguá: O Fundeb é uma das principais ferramentas de redução das desigualdades educacionais do Brasil. Precisamos fortalecer seu caráter redistributivo e ampliar a participação da União no financiamento da educação básica, especialmente onde a capacidade fiscal é menor.
O Brasil historicamente apresenta uma distorção importante no financiamento educacional: o custo público por aluno do ensino superior é muito superior ao da educação básica. Precisamos discutir se estamos destinando os recursos públicos de forma proporcional à responsabilidade que temos de garantir educação de qualidade para milhões de crianças e jovens.
Ao mesmo tempo, mais recursos precisam estar acompanhados de planejamento, transparência, boa gestão e compromisso com as aprendizagens.
Não podemos exigir os mesmos resultados de redes com capacidades financeiras tão diferentes. Educação é um pacto federativo, e cada ente precisa assumir sua responsabilidade de acordo com sua capacidade.
Minha experiência na gestão pública me permite chegar ao Congresso conhecendo esse problema não apenas na teoria, mas na prática.
Sem Censura: Como uma candidata associada ao grupo do governo do DF, até que ponto sua atuação parlamentar manterá alinhamento automático com lideranças políticas e partidárias quando pautas de interesse da educação entrarem em conflito com interesses de bancadas influentes no Congresso?
Hélvia Paranaguá: Eu sou uma pessoa de grupo, de diálogo e de lealdade, mas não sou de alinhamento automático.
Respeito as lideranças e acredito na construção coletiva, mas um mandato parlamentar tem uma responsabilidade maior: representar a população e defender aquilo em que se acredita.
Se uma pauta for boa para a educação, vou trabalhar para aprová-la. Se precisar ser aperfeiçoada, vou dialogar. E, se for prejudicial aos estudantes ou à educação pública, terei independência para me posicionar.
Levo comigo a experiência de cinco anos à frente da Secretaria de Educação e de uma vida inteira dedicada à educação.
Quero fazer um mandato com diálogo para construir, independência para decidir e compromisso com resultados. Meu compromisso é colocar o interesse público e a educação acima dos interesses circunstanciais.
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