Na última semana, o Governo do Distrito Federal (GDF) encaminhou à Câmara Legislativa (CLDF) um projeto de lei em regime de urgência para liberar nada menos que R$ 508,5 milhões em crédito suplementar. A justificativa oficial da governadora Celina Leão e da Secretaria de Economia (Seec-DF) é a “manutenção do equilíbrio financeiro” do Sistema de Transporte Público Coletivo (STPC), gerido pela Semob-DF.
Traduzindo do “politiquês” para a realidade do morador do DF: o governo quer injetar mais meio bilhão de reais no bolso das empresas de ônibus para cobrir a conta de um sistema que não funciona.
A conta que nunca fecha
Não é a primeira e, com certeza, não será a última vez que o DF injeta rios de dinheiro no transporte público sob o pretexto de “equilíbrio financeiro”. O mecanismo do subsídio — a famosa tarifa técnica — transformou o transporte coletivo da capital em um poço sem fundo.
Enquanto o orçamento da Semob-DF engole valores astronômicos ano após ano, o que a população recebe em troca?
Frota sucateada e insuficiente: Ônibus lotados, quebrados e sem ar-condicionado em pleno vapor.
Atrasos constantes: Linhas e horários que só existem no papel, deixando trabalhadores à mercê do caos diário nas paradas do Entorno e das Regiões Administrativas.
Falta de transparência: Onde exatamente vai parar o dinheiro do subsídio? Qual é o custo real da operação por passageiro? As planilhas das concessionárias permanecem como um mistério que a população nunca consegue auditar de fato.
Urgência para quem?

Crédito: Carolina Curi/Agência CLDF
O envio da proposta à CLDF em regime de urgência liga um sinal de alerta vermelho. Por que a pressa em aprovar a liberação de mais de R$ 508 milhões sem um debate aprofundado com a sociedade e com os usuários do sistema?
Tratar suplementações milionárias como rotina orçamentária escancara a falta de planejamento do GDF. Se o sistema exige aportes emergenciais dessa magnitude para não colapsar, fica provado que o modelo de concessão atual faliu. O governo prefere apagar o incêndio jogando notas de R$ 100 no fogo em vez de exigir contrapartidas rígidas, metas de qualidade ou reavaliar os contratos com as empresas de transporte.
O papel da CLDF: fiscalizar ou homologar?
A bola agora está com os deputados distritais. A aprovação desse crédito suplementar não pode ser tratada como um simples trâmite burocrático.
Aceitar passivamente o pedido da governadora Celina Leão é assinar um cheque em branco com o dinheiro do imposto do cidadão brasiliense. Antes de aprovar um único centavo desses R$ 508,5 milhões, a CLDF tem a obrigação de exigir:
Auditoria independente nas planilhas do STPC.
Plano de metas claro com sanções e multas severas para as empresas que descumprirem horários e frota.
Melhorias imediatas na qualidade do serviço prestado à população.
Injetar mais meio bilhão sem cobrar resultados não é garantir o transporte público; é perpetuar um privilégio empresarial financiado pelo trabalhador do DF.
